Quando queremos engrandecer os nossos atos, mudamos a linguagem pela qual contamos a nossa história. É assim que batalhas se tornam arte, é assim que a infância se converte em um lugar de nobreza.
Acontece que também é pela linguagem que nós atenuamos os nossos atos. É assim que a palavra mortos se transforma na palavra baixas, por exemplo, em uma guerra. A palavra é a roupa com a qual vestimos a realidade para que ela caiba, sem apertar, na nossa consciência.
Este texto, porém, é sobre uma reforma linguística, por assim dizer, específica. Presente em todos os nossos dezembros, ela ocorre ali, bem no centro do presépio.
Olhemos para o objeto físico. Trata-se de uma caixa de madeira rústica, gasta pelos dentes dos animais, impregnada do cheiro azedo de saliva e restos de comida fermentada. É um objeto de utilidade bruta, suja, rural. O nome disso é cocho. É no cocho que o bicho come.
Mas a nossa sensibilidade não suportaria dizer que Deus, vindo em carne, nasceu e foi posto num cocho. Deus num cocho é um escândalo teológico, ético e, sobretudo, estético.
Então, recorremos à linguagem. Pegamos o cocho e o rebatizamos de manjedoura.
A palavra manjedoura, que é bonita, parece menos um objeto e mais um conceito. Ela foi lavada, desinfetada e dourada pela liturgia. Ela não tem cheiro de curral, tem cheiro de incenso, talvez do mesmo incenso que lhe seria trazido (não no dia do nascimento, mas algum tempo depois) pelos magos, cuja quantidade a Bíblia nem sequer especifica, mas nos acostumamos a chamar de três.
Na manjedoura, a palha não pinica as costas do bebê e não há moscas rondando o leite. A manjedoura higieniza a pobreza divina para que ela se torne palatável nas nossas salas de estar enfeitadas.
Ao trocar a palavra, tentamos salvar a dignidade de Deus, sem perceber que a intenção era justamente abrir mão dela. "Não havia lugar para eles na hospedaria", diz o versículo 7 do capítulo 2 de Lucas, assim como não houve lugar para Deus neste mundo.
A ironia reside no fato de que, ao elevarmos a linguagem, perdemos a potência da mensagem. A manjedoura é o lugar onde esperamos encontrar um rei, o cocho é o lugar onde jamais esperaríamos encontrar o sagrado. E foi exatamente lá que o sagrado escolheu estar.
Enquanto polimos a palavra manjedoura para que ela brilhe nos nossos textos de Natal, esquecemos que o milagre não foi o berço ter se tornado nobre. O milagre foi o infinito ter cabido, voluntariamente, dentro de um cocho, pois não havia lugar para ele em outro lugar.