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23 de dezembro de 2025

O cocho, a manjedoura

Quando queremos engrandecer os nossos atos, mudamos a linguagem pela qual contamos a nossa história. É assim que batalhas se tornam arte, é assim que a infância se converte em um lugar de nobreza.

Acontece que também é pela linguagem que nós atenuamos os nossos atos. É assim que a palavra mortos se transforma na palavra baixas, por exemplo, em uma guerra. A palavra é a roupa com a qual vestimos a realidade para que ela caiba, sem apertar, na nossa consciência.

Este texto, porém, é sobre uma reforma linguística, por assim dizer, específica. Presente em todos os nossos dezembros, ela ocorre ali, bem no centro do presépio.

Olhemos para o objeto físico. Trata-se de uma caixa de madeira rústica, gasta pelos dentes dos animais, impregnada do cheiro azedo de saliva e restos de comida fermentada. É um objeto de utilidade bruta, suja, rural. O nome disso é cocho. É no cocho que o bicho come.

Mas a nossa sensibilidade não suportaria dizer que Deus, vindo em carne, nasceu e foi posto num cocho. Deus num cocho é um escândalo teológico, ético e, sobretudo, estético.

Então, recorremos à linguagem. Pegamos o cocho e o rebatizamos de manjedoura.

A palavra manjedoura, que é bonita, parece menos um objeto e mais um conceito. Ela foi lavada, desinfetada e dourada pela liturgia. Ela não tem cheiro de curral, tem cheiro de incenso, talvez do mesmo incenso que lhe seria trazido (não no dia do nascimento, mas algum tempo depois) pelos magos, cuja quantidade a Bíblia nem sequer especifica, mas nos acostumamos a chamar de três.

Na manjedoura, a palha não pinica as costas do bebê e não há moscas rondando o leite. A manjedoura higieniza a pobreza divina para que ela se torne palatável nas nossas salas de estar enfeitadas.

Ao trocar a palavra, tentamos salvar a dignidade de Deus, sem perceber que a intenção era justamente abrir mão dela. "Não havia lugar para eles na hospedaria", diz o versículo 7 do capítulo 2 de Lucas, assim como não houve lugar para Deus neste mundo.

A ironia reside no fato de que, ao elevarmos a linguagem, perdemos a potência da mensagem. A manjedoura é o lugar onde esperamos encontrar um rei, o cocho é o lugar onde jamais esperaríamos encontrar o sagrado. E foi exatamente lá que o sagrado escolheu estar.

Enquanto polimos a palavra manjedoura para que ela brilhe nos nossos textos de Natal, esquecemos que o milagre não foi o berço ter se tornado nobre. O milagre foi o infinito ter cabido, voluntariamente, dentro de um cocho, pois não havia lugar para ele em outro lugar.

9 de janeiro de 2024

Augusto Matraga sou eu, o salvo

"A Hora e a Vez de Augusto Matraga", conto de João Guimarães Rosa, é uma história que fala direto e firme com meu coração de salvo por Cristo. É a história de um homem muito mau, pior do que é de costume todos sermos, explorador, infiel, terrível, que passa pelo abismo das muitas humilhações possíveis, quase morto pensa em Jesus, tem suas feridas tratadas por um casal que lhe adota, converte-se, torna-se instrumento da Justiça, luta e morre.

Quem já leu o conto (ou viu alguma versão cinematográfica) sabe o que significou tornar-se instrumento da Justiça, tanto no auxiliar dos irmãos, quanto no duelo final com o bando do personagem mais bravo do sertão; pois Deus é tanto amor (1 João 4:8) quanto fogo consumidor (Hebreus 12:29). Esta significação, essa senda, passa desde a compreensão do próprio pecado, como vemos em seu bonito diálogo com o padre:

— Mas, será que Deus vai ter pena de mim, com tanta ruindade que fiz, e tendo nas costas tanto pecado mortal?!

— Tem, meu filho. Deus mede a espora pela rédea, e não tira o estribo do pé de arrependido nenhum... 

Passando pelo sentimento de impotência nesse mundo, resumido também pelo lindo diálogo com sua mãe adotiva:

— Desonrado, desmerecido, marcado a ferro feito rês, mãe Quitéria, e assim tão mole, tão sem homência, será que eu posso mesmo entrar no céu?!...

— Não fala fácil, meu filho!... Dei’stá: debaixo do angu tem molho, e atrás de morro tem morro.

E o reconhecimento da Graça:

Então, tudo estava mesmo muito mudado, e Nhô Augusto, de repente, pensou com a ideia muito fácil, e o corpo muito bom. Quis se assustar, mas se riu:

— Deus está tirando o saco das minhas costas, mãe Quitéria! Agora eu sei que ele está se lembrando de mim...

— Louvor ao Divino, meu filho!

E, uma vez, manhã, Nhô Augusto acordou sem saber por que era que ele estava com muita vontade de ficar o dia inteiro deitado, e achando, ao mesmo tempo, muito bom se levantar. Então, depois do café, saiu para a horta cheirosa, cheia de passarinhos e de verdes, e fez uma descoberta: por que não pitava?!... Não era pecado... Devia ficar alegre, sempre alegre, e esse era um gosto inocente, que ajudava a gente a se alegrar...

E isso foi pensado muito ligeiro, porque já ele enrolava a palha, com uma pressa medonha, como se não tivesse curtido tantos anos de abstenção. Tirou tragadas, soltou muitas fumaças, e sentiu o corpo se desmanchar, dando na fraqueza, mas com uma tremura gostosa, que vinha até ao mais dentro, parecendo que a gente ia virar uma chuvinha fina.

Não, não era pecado!... E agora rezava até muito melhor e podia esperar melhor, mais sem pressa, a hora da libertação.

Até Augusto chegar naquilo que quem já leu sabe e quem não leu saberá se ler.

O que me alegra e faz o reconhecimento ocorrer entre este personagem e eu é a nossa salvação, este vislumbrar parcialmente um caminho que de tão longo dá vertigem, e que de tão eterno dá certeza. Este "ontem já era hoje, mas eu não sabia" que se torna "amanhã, quando entender, hei de sorrir". O coração perdoado primeiro por Deus e depois por si mesmo. Sempre alegre, desde então.

Alberto da Costa e Silva, amigo de Rosa, contou, em uma entrevista, que João dizia: "Eu quero escrever de tal maneira que, quando chegar no Juízo Final, valha". Augusto Matraga, que não existe ou existiu, tinha o mesmo desejo de transformar a mesquinharia da própria existenciazinha em Louvor. Matraga, João, eu, tantos outros!

Quando chegar no Juízo, que valha! Porém, já fui salvo.

2 de novembro de 2021

Aqueles que invejam Deus

Quando Herodes perguntou aos religiosos onde nasceria o Cristo, eles responderam com apenas parte da profecia de Miquéias:

"E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as capitais de Judá; porque de ti sairá o Guia que há de apascentar o meu povo Israel." (Mateus 2:6)

Por que apenas com uma parte?

Porque a profecia continua dizendo: "[...] e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade." (Miquéias 5:2)

Já está expressa aqui a inveja dos religiosos em relação ao Senhor; se ele fosse apenas um rei, ainda seria só homem. Mas, já que ele é desde os dias da eternidade, ele também é Deus. Alguns poderosos invejam Deus porque, sendo tratados como deuses, ambicionam também o trono de Sê-lo. Logo, também invejam ser como Cristo.

"Portanto, estando eles reunidos, disse-lhes Pilatos: Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo? Porque sabia que por inveja o haviam entregado." (Mateus 27:17,18)

5 de janeiro de 2021

A ignorância, a certeza e o amor

"Ora, no tocante às coisas sacrificadas aos ídolos, sabemos que todos temos ciência. A ciência incha, mas o amor edifica. E, se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber." Assim começa o capítulo 8 de I Coríntios. Aqui, vemos que "a comida não nos faz agradáveis a Deus, porque, se comemos, nada temos de mais e, se não comemos, nada nos falta"; no entanto, também vemos neste capítulo a necessidade de tomar cuidado para que "essa liberdade não seja de alguma maneira escândalo para os fracos".

De um lado, o conhecimento incha; de outro, o amor edifica. Afinal, é possível reconciliar tais virtudes? O que já conhecemos? O que pode ser conhecido? O que é simplesmente uma pedra pesada demais para qualquer inteligência humana? 

Nenhuma dessas respostas será dada de forma completa neste texto, já que, como dito anteriormente, "se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber". Falarei brevemente sobre o assunto, porém.

No capítulo 13 do mesmo livro de I Coríntios, lemos: "E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria". Como complemento ao capítulo 8, vemos que os conhecimentos, bem como outras virtudes, de nada valem onde não há amor. Não apenas isso, mas nos é revelado que o amor é o próprio meio pelo qual o conhecimento de Deus é possível ao homem, como nos revela 1 João 4:7: "Amados, amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus".

A revelação de Deus em Cristo, portanto, tal qual a luz mais pura, ilumina tudo. O amor, este rasgar-se de si mesmo em prol do outro e em louvor a Deus, é a medida do cognoscível! Nisto consiste a alegria de ter certeza, prática da fé e conhecimento edificante: amar.  

Há duas passagens bíblicas que pensei em citar para meditarmos sobre isso.

Em primeiro lugar, pensei em Abraão e sua relação com o cordeiro desconhecido.

Gênesis 22 nos apresenta o seguinte diálogo: "Então falou Isaque a Abraão seu pai, e disse: Meu pai! E ele disse: Eis-me aqui, meu filho! E ele disse: Eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto? E disse Abraão: Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto, meu filho. Assim caminharam ambos juntos". 

Isaque faz uma pergunta, Abraão lhe dá a certeza da fé, embora incerta em seus detalhes. O que Abraão conhecia? Sabia aparentemente pouco sobre o tamanho, a cor e a idade do cordeiro; sabia aparentemente nada sobre um certo João Batista, que muitos anos depois diria de Cristo "eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo". O que Abraão conhecia, revelava-se a partir do amor fiel, como nos diz Hebreus 11: "Pela fé ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado; sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigênito. Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou que Deus era poderoso para até dentre os mortos o ressuscitar; E daí também em figura ele o recobrou".

Em segundo lugar, pensei na dúvida de Daniel em relação à profecia que lhe foi entregue. 

No último capítulo do livro de Daniel, após receber uma das maiores revelações já dadas a um ser humano, ele diz: "Eu, pois, ouvi, mas não entendi; por isso eu disse: Senhor meu, qual será o fim destas coisas? E ele disse: Vai, Daniel, porque estas palavras estão fechadas e seladas até ao tempo do fim".

Daniel não sabia, não conhecia, mas era amado e amava - e isto lhe enchia do conhecimento de Deus, mesmo em sua ignorância, a ponto de fortalecer seu coração contra a enorme tristeza. No capítulo 10 do mesmo livro podemos ler: "E disse: Não temas, homem muito amado, paz seja contigo; anima-te, sim, anima-te. E, falando ele comigo, fiquei fortalecido, e disse: Fala, meu senhor, porque me fortaleceste".

Nisto consiste conhecer a Deus: amar. E "nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados", conforme 1 João 4:10.

Que esta seja a nossa fortaleza, irmãos, bem como a libertação de nossa ignorância e caminho de nossa certeza. Amém!

1 de setembro de 2020

A descoberta do outro

Eu, quando criança, andando nos primeiros passos do meu narcisismo, duvidava da existência real das outras pessoas. Era como olhar nos olhos de alguém e não ver ninguém por trás; algo perigoso, que poderia gerar em mim a sensação de que nem todo ser humano sabia existir.

Algo que me encaminhava para o egoísmo.

Depois, vim a perceber que tudo o que eu fazia gerava reações nos outros, e interpretei tais respostas como instintivas daqueles que, quando atacados, atacam, e, quando acariciados, acariciam. Isso ainda não provava a existência consciente do outro.

No entanto, com o tempo, vim a perceber que nem sempre o ódio que eu sentia era respondido com mais ódio - e isso me chocou. A figura central dessa compreensão é minha vó Teresa, que já partiu para estar com o Senhor.

Quando eu a tratava bem, ela me amava; quando eu a tratava mal, fazendo birra, ela também me amava! Isso é o que chamamos de mimar alguém, mas, curiosamente, serviu para o propósito maior de me revelar que existe gente atrás dos olhos que me olham.

Serviu para eu descobrir o outro, porque havia uma consciência ali cuidando de mim.

Hoje, sendo já homem, percebo que minha vó não era perfeita - mas que o amor é. Percebo, também, que muitas vezes fiz o contrário que o exemplo amoroso dela me deu - quantas vezes tratei com desprezo quem só queria me amar!

Mas, assim como a sabedoria da minha vó me ensinou a existência de outras consciências, o meu próprio egoísmo me ensinou a existência daquela que é a grande consciência: Deus.

Se conheci alguém que não tinha seu amor por mim perturbado com más ações, Deus é quem não tem seu amor perturbado por nenhum de nós! Procure por Romanos 8:37-39 na bíblia.

Deus é inabalável no seu amor por nós. Transformou nossa ira contra Cristo em salvação, por exemplo, e essa é a prova maior da existência de uma consciência por trás dos olhos de Deus.

"Porque o amor cobrirá a multidão de pecados."(1 Pedro 4:8).

Então, ao pensar na própria dor, lembre-se que há outros olhos, de gente igualmente dolorida. Lembre-se, também, que sobre todos nós há o Amor, que nos ama ainda que nós sejamos absoluto ódio contra Ele. Lembre-se da salvação.

"A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo." (Romanos 10:9).

23 de junho de 2020

Os hutus, os tutsis e a resposta à opressão

Abomino a frase "não devemos confundir a reação do oprimido com a violência do opressor” e vou explicar o porquê com um exemplo histórico.

Em 1994, cerca de 1 milhão de pessoas foram assassinadas e por volta de 500 mil pessoas foram estupradas em alguns dias, no que ficou conhecido como Massacre de Ruanda.

Em resumo, isso ocorreu porque a maioria étnica hutu, geralmente inferiorizada pelos colonizadores belgas, se revoltou contra a minoria étnica tutsi - que majoritariamente ocupava os cargos de poder antes da independência do país, ocorrida em 62. 

A revolta dos outrora oprimidos hutus, portanto, matou cerca de 70% da população tutsi.

Estou dizendo isso porque a relação "oprimido vs. opressor" facilmente se inverte quando há legitimidade ideológica para a barbárie. 

Levando isso em consideração, o opressor do passado se torna o oprimido do presente e crê que pode renovar o embate, dizendo: "tenho o direito de bater em quem me agrediu".

Ora, só há uma maneira de quebrar esse ciclo de ódio! 

"Mas a vós, que isto ouvis, digo: Amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam; Bendizei os que vos maldizem, e orai pelos que vos caluniam. Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra; e ao que te houver tirado a capa, nem a túnica recuses; E dá a qualquer que te pedir; e ao que tomar o que é teu, não lho tornes a pedir." (Lucas 6:27-30)

Quem disse isso foi Aquele que, de fato, tem o direito de julgar todos os homens - e que escolheu morrer por amor a nós, mesmo sendo nós seus inimigos.

"Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca." (Isaías 53:7)

Eis a resposta de Cristo à opressão.

Mas a salvação é resposta dada apenas aos que creem Nele. Porque, para os que não creem, ele agirá com justiça contra a impunidade geral das opressões contínuas.

"Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus." (João 3:18)

E então: como pretende que a sua opressão seja respondida?

14 de maio de 2020

Bilhete pensando naqueles que "vestem-se de violência como de adorno"

Não se orgulhe do seu caráter violento. Não considere corajosa a sua postura de atiçar guerras e arquitetar contendas por onde passa; essa, pelo contrário, é apenas a índole covarde de quem não consegue habitar a paz e por isso quer transtorná-la.

Digo isso porque, cansado por ver a belicosidade de alguns homens que se dizem cristãos, repito em meu coração o versículo 6 do Salmo 120 ("A minha alma bastante tempo habitou com os que detestam a paz") e pergunto:

Por que vocês detestam a paz?

Por que a vossa língua enrola-se no cardume das horas e o veneno escorre viscoso pelo vosso queixo?

Por que usam o santo nome de Deus para justificar vosso odor de morte?

Eu também fico com raiva, claro. Mas não me orgulho disso, pelo contrário, me envergonho quando acontece.

"Porque a ira do homem não opera a justiça de Deus" (Tiago 1:20).

Qual é, portanto, a razão em haver vaidade nos que se fazem filhos da guerra?

Mesmo que os mais raivosos tenham posição de destaque em nosso século doente, não devemos louvá-los; mesmo que os mais raivosos ganhem prêmios, não devemos segui-los.

Já que "Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus", conforme Mateus 5:9.

Nós, tais filhos de Deus, fomos chamados para a paz.

10 de abril de 2020

21 de janeiro de 2020

Os vencedores que não disputaram

Embora eu seja brasileiro, nunca participei de uma copa do mundo de futebol. Mesmo assim, já ouvi muitos dizerem, cada qual da sua forma, que "no futebol somos pentacampeões do mundo". 

Pergunto a vocês: nós quem? Ora, nós, os que torcem pelo Brasil! Mas se nós, individualmente, não estávamos no campo de futebol quando a vitória ocorreu, por que ganhamos?

Ganhamos porque a identificação da vitória no esporte ocorre a partir da exibição simbólica de um grupo, geralmente chamado de "time", que representa no jogo uma amostra maior de indivíduos, chamada de "torcida". 

Explicando de forma mais simples, todos os que torcem para o Brasil vencem quando onze brasileiros vencem. É como se fosse uma vitória por amostragem.

Essa vitória por amostragem me lembra a vitória de Cristo na cruz.

"Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo." - João 16:33

Porque foi na cruz que Jesus venceu o mundo, e venceu o príncipe deste mundo, fazendo com que sua torcida, a igreja, vencesse com ele. 

E por igreja entendo todos os que creem em tal vitória, independente de religião. 

"Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna." - João 3:16

"Todo aquele que nele crê", por sua vez, é uma frase que justifica porque nem todos os brasileiros vencem quando onze brasileiros vencem, mas, apenas os que torcem para o Brasil. Qual a diferença?

A diferença é que há brasileiros que não torcem para o Brasil, pelo contrário, e o mesmo ocorre com Cristo; pois, mesmo ele vindo como humano, nem todos os humanos torcem por ele.

Sem falar naqueles que não acreditam na vitória de Cristo como vitória de si mesmos, como alguém que dissesse "Pelé coisa nenhuma; se eu não joguei em 1970, eu não venci".

Sendo que nossa vitória existiu e existe porque Cristo é o único que podia jogar esse jogo e vencer! Ou você acha que "seleção brasileira" tem esse nome à toa? Cristo é a seleção de Deus, jogando pelo Reino dos Céus. Eis nossa seleção! Eis nossa vitória!

"Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo. Ao que vencer lhe concederei que se assente comigo no meu trono; assim como eu venci, e me assentei com meu Pai no seu trono." - Apocalipse 3:20,21

Amém!

13 de dezembro de 2019

Adão, quando interpelado pelo Senhor, disse que a culpa pelo pecado original foi de Eva; Eva, por sua vez, culpou a serpente. Assim somos nós, diante dos nossos pecados, buscando cobrir o nosso mal com o "mal pior" do próximo.

Por isso, diante do escárnio dos comediantes deste mundo, diante dos religiosos, diante de Eva, diante de Adão, diante de Deus, o que importa é fazer a confissão feita por Paulo:

"Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal." - 1 Timóteo 1:15

2 de novembro de 2019

A lei dos homens

Conheço suficientemente a minha carne para saber a desconfiança que a simplicidade me causa. Tal sentimento, porém, está em quase todas as outras pessoas que conheci, pois não sabemos nos pacificar com o simples amor de Deus; queremos éditos, novas diretrizes, adendos.

A salvação é simples: "quem ouve a minha Palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida" (João 5:24). Mas quão difícil é ter fé simples nisso! E, por conta da inquietude complexada nos corações, os homens criam anexos humanos à salvação, a partir de leituras isoladas das Escrituras. Então alguns dizem: "ai daquele que não guardar o sábado!" - mesmo que Cristo tenha trabalhado no sábado. E outros dizem: "ai daqueles que não se abstiverem do sangue!" - e deixam sofrer as crianças que precisam de transfusão de sangue, quando o Cristo Eterno perguntou "qual de vós, se lhe cair num poço um filho, ou um boi, não o tirará logo, mesmo em dia de sábado?" E mais alguns: "ai de quem descumprir um dos dez mandamentos!" - enquanto em seus corações cobiçam, cobiçam, cobiçam.

Sobre estes, que pensam poder utilizar a santidade das palavras de Deus para causar o mal no próximo, Jesus falou no capítulo 23 de Mateus. Leiam.

Por conta dessas distorções das leis dos homens, experimentei uma sensação ruim ao visitar Ouro Preto e suas muitas igrejas de arquitetura barroca. Ao mesmo tempo que a beleza arquitetônica alegrava meus olhos, pensar nas restrições de raça que foram erigidas ali em outros tempos (isto é, os templos separados para negros e brancos) me entristecia ao mostrar que naquelas igrejas não necessariamente havia o amor do Senhor que me acolheu. Tanto ouro retirado com o sangue de escravos, tanta prata lavrada com os calos de pessoas tratadas como vermes nos templos erigidos sob a lei dos homens; pois, se houvesse a simplicidade do amor de Cristo, diferente dispensação que une todos os filhos e filhas de Adão sob a mesma Graça, não haveria tal atrocidade com os africanos, com os indígenas, com quem quer que seja.

Assim, Nosso Senhor disse: "portanto, tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a Lei e os Profetas" (Mateus 7:12).

Ouçamos, pois, e cumpramos a Lei.

Amém!


8 de outubro de 2019

Para estar à vontade, estar na Vontade de Deus

Fui ateu, assíduo e vaidoso, ao longo de quase 10 anos. Mesmo durante esse tempo de escuridão, porém, o Senhor me cercava com seu amor, embora eu me escondesse, estando "preso na praça de Deus, como peixe em nenhuma rede", conforme João Guimarães Rosa. Para exemplificar, lembro que algumas vezes sonhei estar no Paraíso, salvo entre muitos salvos,  sentindo o êxtase pleno da Luz em meu coração, diante do único que É. Sentia-me plenamente feliz, até acordar triste por não ser verdade aquele sonho e, pior, por não poder ser, dado meu decrépito estado de descrença.

Eu queria, no fundo, ser o salvo entre muitos salvos. Lembro de ouvir uma música do Jorge Mautner, uma música nada religiosa, inclusive, chamada "Vivendo sem grilo", ouvi-la e confessar tal desejo luzidio em mim. Essa música diz algo como "na casa de Deus, onde não tem porta nem trinco, todos já estão de antemão perdoados e amados por toda a eternidade". Isto eu ouvia e pensava na maravilha de que todos, todos, todos estivessem de antemão perdoados e amados por toda a eternidade! Mas ainda permanecia no ateísmo.

Os anos se passaram, o Pai recolheu meus fragmentos e me nasceu para uma nova vida. A alegria que eu sentia sonhando, agora eu sinto vivendo; mesmo que em um mundo que nada tenha de Céu, tenho certeza de que já estou salvo, pela fé em Nosso Senhor Jesus Cristo, e isso já é estar com Ele. Um exemplo dessa alegria é a benção de ter a Vontade de Deus, a sensação de reconhecer que na minha pequeneza pude querer o que o Criador de todas as coisas quer. Porque vi, naquela minha vontade de que todos, todos, todos se salvem, a Vontade de Deus, "pois isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade" (1 Timóteo 2:3,4).

A mim, pó, minúsculo ser criado, Deus permitiu querer algo dentro de Sua Vontade, ainda antes da minha conversão! Isso é que é benção! Nada é melhor para estar à vontade do que estar na Vontade de Deus. E isso permaneço querendo: que todos, todos, todos sejam salvos!

Amém!



24 de setembro de 2019

Os injustos, o Justo

Um grande risco para a própria honestidade é este: crer-se bom só porque outra pessoa é ruim.

Vejam: um homem fumava debaixo da marquise, bafejando os traços sinuosos de fumaça no rosto dos passantes, enquanto outro homem, bêbado, cambaleava por ali, trombando nas mesmas pessoas da calçada. Era meio-dia. Os dois homens eram odiados pelos que passavam, julgados, mas dentro de seus corações eles pensavam mal apenas um do outro. "É melhor fumar do que ser esse bêbado que tromba em todo mundo", o fumante meditou. "É melhor beber do que poluir o ar como esse idiota", o bêbado refletiu. E as pessoas que por eles passavam, pensando o pior dos dois, ao tentar desviar de ambos trombavam em mais alguns, que também internamente xingavam a eles e trombavam em outros, etc, etc, etc.

Um grande risco para o próprio caminho é este: crer-se no caminho certo só porque outra pessoa está no caminho errado.

Vejam: há quem xingue e pense "pelo menos não bato". Há quem bata e pense "pelo menos não xingo". E há quem vendo estas duas pessoas pense que age com justiça, apenas porque não xinga nem bate, ou pelo menos porque só faça isso em seu próprio coração. Quem mata, está errado. Mas quem pensa em matar, como ousa dizer que tem as mãos mais limpas do que as mãos do assassino?

"Ouvistes que foi dito aos antigos: 'Não matarás; mas quem assassinar estará sujeito a juízo'. Eu, porém, vos digo que qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito a juízo", disse o Justo.

E, como sempre, a sabedoria está em Sua voz.

Eu me ofendia com as feministas, quando elas diziam que os homens (no sentido de gênero masculino) são estupradores em potencial. Hoje não me ofendo, e ainda completo: tudo o que os homens (no sentido de espécie humana) são de ruim, eu também sou, em potencial ou na prática. "Pode um ser mortal ser perfeitamente justo diante de Deus?" - eu não posso.

Compreender que em todos os povos, em todas as nações, todos os indivíduos têm consciência de uma lei maior do que eles próprios, e que fracassaram ao tentar cumprir essa lei, constitui o início da real liberdade. O próximo passo é confiar que Jesus, o supracitado Justo, foi quem cumpriu integralmente esta lei, sendo assassinado em nome dos injustos que creem nele, justificando-os.

Porque se apenas o Justo pode jogar a primeira pedra contra quem erra, e a primeira pedra não foi jogada, quem mais ousará apedrejar quem quer que seja?

"Quando Jesus se ergueu, não vendo a ninguém mais, além da mulher, disse a ela: 'Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou?' Disse ela: 'Ninguém, Senhor.' E assim lhe disse Jesus: 'Nem Eu te condeno; podes ir e não peques mais.'”

Amém!