23 de dezembro de 2025

O cocho, a manjedoura

Quando queremos engrandecer os nossos atos, mudamos a linguagem pela qual contamos a nossa história. É assim que batalhas se tornam arte, é assim que a infância se converte em um lugar de nobreza.

Acontece que também é pela linguagem que nós atenuamos os nossos atos. É assim que a palavra mortos se transforma na palavra baixas, por exemplo, em uma guerra. A palavra é a roupa com a qual vestimos a realidade para que ela caiba, sem apertar, na nossa consciência.

Este texto, porém, é sobre uma reforma linguística, por assim dizer, específica. Presente em todos os nossos dezembros, ela ocorre ali, bem no centro do presépio.

Olhemos para o objeto físico. Trata-se de uma caixa de madeira rústica, gasta pelos dentes dos animais, impregnada do cheiro azedo de saliva e restos de comida fermentada. É um objeto de utilidade bruta, suja, rural. O nome disso é cocho. É no cocho que o bicho come.

Mas a nossa sensibilidade não suportaria dizer que Deus, vindo em carne, nasceu e foi posto num cocho. Deus num cocho é um escândalo teológico, ético e, sobretudo, estético.

Então, recorremos à linguagem. Pegamos o cocho e o rebatizamos de manjedoura.

A palavra manjedoura, que é bonita, parece menos um objeto e mais um conceito. Ela foi lavada, desinfetada e dourada pela liturgia. Ela não tem cheiro de curral, tem cheiro de incenso, talvez do mesmo incenso que lhe seria trazido (não no dia do nascimento, mas algum tempo depois) pelos magos, cuja quantidade a Bíblia nem sequer especifica, mas nos acostumamos a chamar de três.

Na manjedoura, a palha não pinica as costas do bebê e não há moscas rondando o leite. A manjedoura higieniza a pobreza divina para que ela se torne palatável nas nossas salas de estar enfeitadas.

Ao trocar a palavra, tentamos salvar a dignidade de Deus, sem perceber que a intenção era justamente abrir mão dela. "Não havia lugar para eles na hospedaria", diz o versículo 7 do capítulo 2 de Lucas, assim como não houve lugar para Deus neste mundo.

A ironia reside no fato de que, ao elevarmos a linguagem, perdemos a potência da mensagem. A manjedoura é o lugar onde esperamos encontrar um rei, o cocho é o lugar onde jamais esperaríamos encontrar o sagrado. E foi exatamente lá que o sagrado escolheu estar.

Enquanto polimos a palavra manjedoura para que ela brilhe nos nossos textos de Natal, esquecemos que o milagre não foi o berço ter se tornado nobre. O milagre foi o infinito ter cabido, voluntariamente, dentro de um cocho, pois não havia lugar para ele em outro lugar.

9 de janeiro de 2024

Augusto Matraga sou eu, o salvo

"A Hora e a Vez de Augusto Matraga", conto de João Guimarães Rosa, é uma história que fala direto e firme com meu coração de salvo por Cristo. É a história de um homem muito mau, pior do que é de costume todos sermos, explorador, infiel, terrível, que passa pelo abismo das muitas humilhações possíveis, quase morto pensa em Jesus, tem suas feridas tratadas por um casal que lhe adota, converte-se, torna-se instrumento da Justiça, luta e morre.

Quem já leu o conto (ou viu alguma versão cinematográfica) sabe o que significou tornar-se instrumento da Justiça, tanto no auxiliar dos irmãos, quanto no duelo final com o bando do personagem mais bravo do sertão; pois Deus é tanto amor (1 João 4:8) quanto fogo consumidor (Hebreus 12:29). Esta significação, essa senda, passa desde a compreensão do próprio pecado, como vemos em seu bonito diálogo com o padre:

— Mas, será que Deus vai ter pena de mim, com tanta ruindade que fiz, e tendo nas costas tanto pecado mortal?!

— Tem, meu filho. Deus mede a espora pela rédea, e não tira o estribo do pé de arrependido nenhum... 

Passando pelo sentimento de impotência nesse mundo, resumido também pelo lindo diálogo com sua mãe adotiva:

— Desonrado, desmerecido, marcado a ferro feito rês, mãe Quitéria, e assim tão mole, tão sem homência, será que eu posso mesmo entrar no céu?!...

— Não fala fácil, meu filho!... Dei’stá: debaixo do angu tem molho, e atrás de morro tem morro.

E o reconhecimento da Graça:

Então, tudo estava mesmo muito mudado, e Nhô Augusto, de repente, pensou com a ideia muito fácil, e o corpo muito bom. Quis se assustar, mas se riu:

— Deus está tirando o saco das minhas costas, mãe Quitéria! Agora eu sei que ele está se lembrando de mim...

— Louvor ao Divino, meu filho!

E, uma vez, manhã, Nhô Augusto acordou sem saber por que era que ele estava com muita vontade de ficar o dia inteiro deitado, e achando, ao mesmo tempo, muito bom se levantar. Então, depois do café, saiu para a horta cheirosa, cheia de passarinhos e de verdes, e fez uma descoberta: por que não pitava?!... Não era pecado... Devia ficar alegre, sempre alegre, e esse era um gosto inocente, que ajudava a gente a se alegrar...

E isso foi pensado muito ligeiro, porque já ele enrolava a palha, com uma pressa medonha, como se não tivesse curtido tantos anos de abstenção. Tirou tragadas, soltou muitas fumaças, e sentiu o corpo se desmanchar, dando na fraqueza, mas com uma tremura gostosa, que vinha até ao mais dentro, parecendo que a gente ia virar uma chuvinha fina.

Não, não era pecado!... E agora rezava até muito melhor e podia esperar melhor, mais sem pressa, a hora da libertação.

Até Augusto chegar naquilo que quem já leu sabe e quem não leu saberá se ler.

O que me alegra e faz o reconhecimento ocorrer entre este personagem e eu é a nossa salvação, este vislumbrar parcialmente um caminho que de tão longo dá vertigem, e que de tão eterno dá certeza. Este "ontem já era hoje, mas eu não sabia" que se torna "amanhã, quando entender, hei de sorrir". O coração perdoado primeiro por Deus e depois por si mesmo. Sempre alegre, desde então.

Alberto da Costa e Silva, amigo de Rosa, contou, em uma entrevista, que João dizia: "Eu quero escrever de tal maneira que, quando chegar no Juízo Final, valha". Augusto Matraga, que não existe ou existiu, tinha o mesmo desejo de transformar a mesquinharia da própria existenciazinha em Louvor. Matraga, João, eu, tantos outros!

Quando chegar no Juízo, que valha! Porém, já fui salvo.

2 de novembro de 2021

Aqueles que invejam Deus

Quando Herodes perguntou aos religiosos onde nasceria o Cristo, eles responderam com apenas parte da profecia de Miquéias:

"E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as capitais de Judá; porque de ti sairá o Guia que há de apascentar o meu povo Israel." (Mateus 2:6)

Por que apenas com uma parte?

Porque a profecia continua dizendo: "[...] e cujas saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade." (Miquéias 5:2)

Já está expressa aqui a inveja dos religiosos em relação ao Senhor; se ele fosse apenas um rei, ainda seria só homem. Mas, já que ele é desde os dias da eternidade, ele também é Deus. Alguns poderosos invejam Deus porque, sendo tratados como deuses, ambicionam também o trono de Sê-lo. Logo, também invejam ser como Cristo.

"Portanto, estando eles reunidos, disse-lhes Pilatos: Qual quereis que vos solte? Barrabás, ou Jesus, chamado Cristo? Porque sabia que por inveja o haviam entregado." (Mateus 27:17,18)

15 de fevereiro de 2021

Que linda a resposta dos servos de Naamã! A resposta deles serve também para aquele que se indigna contra a "facilidade da graça" e não crê que basta ter fé em Cristo como salvador para ser salvo. "Lava-te e ficarás limpo", é bom repetir. Lava-te, em Cristo, e ficarás limpo.


"Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia." - João 6:40

5 de janeiro de 2021

A ignorância, a certeza e o amor

"Ora, no tocante às coisas sacrificadas aos ídolos, sabemos que todos temos ciência. A ciência incha, mas o amor edifica. E, se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber." Assim começa o capítulo 8 de I Coríntios. Aqui, vemos que "a comida não nos faz agradáveis a Deus, porque, se comemos, nada temos de mais e, se não comemos, nada nos falta"; no entanto, também vemos neste capítulo a necessidade de tomar cuidado para que "essa liberdade não seja de alguma maneira escândalo para os fracos".

De um lado, o conhecimento incha; de outro, o amor edifica. Afinal, é possível reconciliar tais virtudes? O que já conhecemos? O que pode ser conhecido? O que é simplesmente uma pedra pesada demais para qualquer inteligência humana? 

Nenhuma dessas respostas será dada de forma completa neste texto, já que, como dito anteriormente, "se alguém cuida saber alguma coisa, ainda não sabe como convém saber". Falarei brevemente sobre o assunto, porém.

No capítulo 13 do mesmo livro de I Coríntios, lemos: "E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria". Como complemento ao capítulo 8, vemos que os conhecimentos, bem como outras virtudes, de nada valem onde não há amor. Não apenas isso, mas nos é revelado que o amor é o próprio meio pelo qual o conhecimento de Deus é possível ao homem, como nos revela 1 João 4:7: "Amados, amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus".

A revelação de Deus em Cristo, portanto, tal qual a luz mais pura, ilumina tudo. O amor, este rasgar-se de si mesmo em prol do outro e em louvor a Deus, é a medida do cognoscível! Nisto consiste a alegria de ter certeza, prática da fé e conhecimento edificante: amar.  

Há duas passagens bíblicas que pensei em citar para meditarmos sobre isso.

Em primeiro lugar, pensei em Abraão e sua relação com o cordeiro desconhecido.

Gênesis 22 nos apresenta o seguinte diálogo: "Então falou Isaque a Abraão seu pai, e disse: Meu pai! E ele disse: Eis-me aqui, meu filho! E ele disse: Eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto? E disse Abraão: Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto, meu filho. Assim caminharam ambos juntos". 

Isaque faz uma pergunta, Abraão lhe dá a certeza da fé, embora incerta em seus detalhes. O que Abraão conhecia? Sabia aparentemente pouco sobre o tamanho, a cor e a idade do cordeiro; sabia aparentemente nada sobre um certo João Batista, que muitos anos depois diria de Cristo "eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo". O que Abraão conhecia, revelava-se a partir do amor fiel, como nos diz Hebreus 11: "Pela fé ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado; sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigênito. Sendo-lhe dito: Em Isaque será chamada a tua descendência, considerou que Deus era poderoso para até dentre os mortos o ressuscitar; E daí também em figura ele o recobrou".

Em segundo lugar, pensei na dúvida de Daniel em relação à profecia que lhe foi entregue. 

No último capítulo do livro de Daniel, após receber uma das maiores revelações já dadas a um ser humano, ele diz: "Eu, pois, ouvi, mas não entendi; por isso eu disse: Senhor meu, qual será o fim destas coisas? E ele disse: Vai, Daniel, porque estas palavras estão fechadas e seladas até ao tempo do fim".

Daniel não sabia, não conhecia, mas era amado e amava - e isto lhe enchia do conhecimento de Deus, mesmo em sua ignorância, a ponto de fortalecer seu coração contra a enorme tristeza. No capítulo 10 do mesmo livro podemos ler: "E disse: Não temas, homem muito amado, paz seja contigo; anima-te, sim, anima-te. E, falando ele comigo, fiquei fortalecido, e disse: Fala, meu senhor, porque me fortaleceste".

Nisto consiste conhecer a Deus: amar. E "nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados", conforme 1 João 4:10.

Que esta seja a nossa fortaleza, irmãos, bem como a libertação de nossa ignorância e caminho de nossa certeza. Amém!

7 de outubro de 2020

Sobre o 7º capítulo de Provérbios

Sobre o capítulo 7, serão breves os meus comentários. Leiamos o trecho a seguir:

"Filho meu, guarda as minhas palavras, e esconde dentro de ti os meus mandamentos.

Guarda os meus mandamentos e vive; e a minha lei, como a menina dos teus olhos.

Ata-os aos teus dedos, escreve-os na tábua do teu coração.

Dize à sabedoria: Tu és minha irmã; e à prudência chama de tua parenta,

Para que elas te guardem da mulher alheia, da estranha que lisonjeia com as suas palavras.

Porque da janela da minha casa, olhando eu por minhas frestas,

Vi entre os simples, descobri entre os moços, um moço falto de juízo,

Que passava pela rua junto à sua esquina, e seguia o caminho da sua casa;

No crepúsculo, à tarde do dia, na tenebrosa noite e na escuridão.

E eis que uma mulher lhe saiu ao encontro com enfeites de prostituta, e astúcia de coração.

Estava alvoroçada e irrequieta; não paravam em sua casa os seus pés.

Foi para fora, depois pelas ruas, e ia espreitando por todos os cantos;

E chegou-se para ele e o beijou. Com face impudente lhe disse:

Sacrifícios pacíficos tenho comigo; hoje paguei os meus votos.

Por isto saí ao teu encontro a buscar diligentemente a tua face, e te achei.

Já cobri a minha cama com cobertas de tapeçaria, com obras lavradas, com linho fino do Egito.

Já perfumei o meu leito com mirra, aloés e canela.

Vem, saciemo-nos de amores até à manhã; alegremo-nos com amores.

Porque o marido não está em casa; foi fazer uma longa viagem;

Levou na sua mão um saquitel de dinheiro; voltará para casa só no dia marcado.

Assim, o seduziu com palavras muito suaves e o persuadiu com as lisonjas dos seus lábios.

E ele logo a segue, como o boi que vai para o matadouro, e como vai o insensato para o castigo das prisões;

Até que a flecha lhe atravesse o fígado; ou como a ave que se apressa para o laço, e não sabe que está armado contra a sua vida.

Agora pois, filhos, dai-me ouvidos, e estai atentos às palavras da minha boca.

Não se desvie para os caminhos dela o teu coração, e não te deixes perder nas suas veredas.

Porque a muitos feridos derrubou; e são muitíssimos os que por causa dela foram mortos.

A sua casa é caminho do inferno que desce para as câmaras da morte."

Considerando que já comentei, em capítulos anteriores, sobre a recorrente imagem da mulher adúltera, quero atentar-me agora para duas características específicas desse trecho.

Em primeiro lugar, a religiosidade de tal mulher. No trecho que diz "sacrifícios pacíficos tenho comigo; hoje paguei os meus votos", percebemos que ela diz estar espiritualmente tranquila, considerando ter feito "suas obrigações com Deus". Ora, devemos tomar cuidado para não sermos hipócritas assim!

Um exemplo: eu, querendo escrever um destes capítulos por dia, hoje não me sentia muito disposto para fazê-lo. Então pensei que isso seria fazer algo contra Deus, isto é, eu estava criando um mandamento que não vinha do Senhor, mas da minha própria consciência, e me sentiria "pagando" algo a Ele ao escrever. Tolice minha, claro.

E esta mulher adúltera agia assim: crendo mais em suas divagações do que em Deus, pro qual disse ter feito sacrifícios, ela enchia-se de justiça própria.

Para que eu não haja mais assim, que o Senhor me proteja de mim!

Em segundo lugar, gostaria de comentar sobre o marido, que "não está em casa; foi fazer uma longa viagem; levou na sua mão um saquitel de dinheiro; voltará para casa só no dia marcado".

O Senhor Jesus, como sabido, é chamado de noivo da Igreja; além disso, ele pode ser visto como aquele bom samaritano da parábola, que auxilia um homem ferido em uma estrada. Qual a relação? Vejamos: "E, respondendo Jesus, disse: Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. E, ocasionalmente descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo. E de igual modo também um levita, chegando àquele lugar, e, vendo-o, passou de largo. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão; e, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre o seu animal, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele; e, partindo no outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que de mais gastares eu to pagarei quando voltar" (Lucas 10:30-35).

Os salvos por Cristo assim foram deixados no mundo, como em uma estalagem. O valor deixado pelo samaritano é para garantir os cuidados com o ferido enquanto não volta; e, se for necessário, será paga a diferença no retorno. O marido da mulher adúltera levou dinheiro consigo - e também pagará, pela vingança, o mal que lhe fizeram? 

As imagens contrastam-se, convergem. Talvez eu esteja divagando demais. Mas é bom, de qualquer modo, meditar sobre Cristo, nosso Senhor. O que você acha sobre estas duas imagens?

Até o próximo capítulo!

6 de outubro de 2020

Sobre o 6º capítulo de Provérbios

Cuidado ao se tornar fiador de alguém! É com mensagem semelhante que o capítulo 6 inicia-se:

"Filho meu, se ficaste por fiador do teu companheiro, se deste a tua mão ao estranho,

E te deixaste enredar pelas próprias palavras; e te prendeste nas palavras da tua boca;

Faze pois isto agora, filho meu, e livra-te, já que caíste nas mãos do teu companheiro: vai, humilha-te, e importuna o teu companheiro.

Não dês sono aos teus olhos, nem deixes adormecer as tuas pálpebras.

Livra-te, como a gazela da mão do caçador, e como a ave da mão do passarinheiro."

Ao lermos isso, procuramos nos encaixar nas instruções. Não devo emprestar nada a ninguém, seria isso? Vejamos o que o Senhor Jesus diz: "Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes" (Mateus 5:42). O que aconteceu com as instruções dadas em Provérbios? Novamente reitero: o Velho Testamento foi renovado em Cristo, que cumpriu em si mesmo toda a lei para que fôssemos salvos pela fé. Aquilo que era dito ao povo terreno de Israel, nem sempre servirá ao povo celestial da Igreja. A prudência terrena diz "cuidado ao ser fiador"; a compaixão celestial diz "empreste". Entre as duas coisas, porém, não devemos deixar a prudência, pois o Senhor disse, em Mateus 10:16, "eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede prudentes como as serpentes e inofensivos como as pombas" - algo como entendermos a nova natureza do cristão com a ambiguidade de não sermos do mundo, mas estarmos no mundo.

Até porque o próprio Cristo fez-se fiador por nós, como está escrito: "De tanto melhor aliança Jesus foi feito fiador" (Hebreus 7:22).

Prosseguindo com a leitura do capítulo, lemos:

"Vai ter com a formiga, ó preguiçoso; olha para os seus caminhos, e sê sábio.

Pois ela, não tendo chefe, nem guarda, nem dominador,

Prepara no verão o seu pão; na sega ajunta o seu mantimento.

Ó preguiçoso, até quando ficarás deitado? Quando te levantarás do teu sono?

Um pouco a dormir, um pouco a tosquenejar; um pouco a repousar de braços cruzados;

Assim sobrevirá a tua pobreza como o meliante, e a tua necessidade como um homem armado.

O homem mau, o homem iníquo tem a boca pervertida.

Acena com os olhos, fala com os pés e faz sinais com os dedos.

Há no seu coração perversidade, todo o tempo maquina mal; anda semeando contendas.

Por isso a sua destruição virá repentinamente; subitamente será quebrantado, sem que haja cura."

Aqui, mostra-se o sábio que junta mantimentos para os tempos difíceis. O Senhor Jesus, porém, como já vimos anteriormente, conta uma história que contradiz a gana de encher celeiros. Leiamos novamente: "E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância; e arrazoava ele entre si, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; e direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus" (Lucas 12:16-21).

Outra vez podemos atestar o renovo que há em Cristo; sendo ele o cumpridor da lei, é por meio dele que há uma nova aliança.

Continuemos com a leitura do capítulo:

"Estas seis coisas o Senhor odeia, e a sétima a sua alma abomina:

Olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente,

O coração que maquina pensamentos perversos, pés que se apressam a correr para o mal,

A testemunha falsa que profere mentiras, e o que semeia contendas entre irmãos.

Filho meu, guarda o mandamento de teu pai, e não deixes a lei da tua mãe;

Ata-os perpetuamente ao teu coração, e pendura-os ao teu pescoço.

Quando caminhares, te guiará; quando te deitares, te guardará; quando acordares, falará contigo.

Porque o mandamento é lâmpada, e a lei é luz; e as repreensões da correção são o caminho da vida,

Para te guardarem da mulher vil, e das lisonjas da estranha.

Não cobices no teu coração a sua formosura, nem te prendas aos seus olhos.

Porque por causa duma prostituta se chega a pedir um bocado de pão; e a adúltera anda à caça da alma preciosa.

Porventura tomará alguém fogo no seu seio, sem que suas vestes se queimem?

Ou andará alguém sobre brasas, sem que se queimem os seus pés?

Assim ficará o que entrar à mulher do seu próximo; não será inocente todo aquele que a tocar.

Não se injuria o ladrão, quando furta para saciar-se, tendo fome;

E se for achado pagará o tanto sete vezes; terá de dar todos os bens da sua casa.

Assim, o que adultera com uma mulher é falto de entendimento; aquele que faz isso destrói a sua alma.

Achará castigo e vilipêndio, e o seu opróbrio nunca se apagará.

Porque os ciúmes enfurecerão o marido; de maneira nenhuma perdoará no dia da vingança.

Não aceitará nenhum resgate, nem se conformará por mais que aumentes os presentes."

Em mais um momento vemos que está presente a figura da mulher adúltera e prostituta como aquela que causa destruição. São citadas, também, sete práticas odiosas (a última sendo chamada de abominável) para a alma de Deus. Qual a relação entre a mulher perversa e tais práticas terríveis?

Os "olhos altivos" relacionam-se a "não cobices no teu coração a sua formosura, nem te prendas aos seus olhos".

A "língua mentirosa" relaciona-se a "lisonjas da estranha".

As "mãos que derramam sangue inocente" relacionam-se a "não será inocente todo aquele que a tocar".

O "coração que maquina pensamentos perversos" relaciona-se a "porventura tomará alguém fogo no seu seio, sem que suas vestes se queimem?"

Os "pés que se apressam a correr para o mal" relacionam-se a "ou andará alguém sobre brasas, sem que se queimem os seus pés?"

A "testemunha falsa que profere mentiras" relaciona-se a "não se injuria o ladrão, quando furta para saciar-se, tendo fome".

E tudo isso faz com que exista aquele "que semeia contendas entre irmãos", pois "os ciúmes enfurecerão o marido; de maneira nenhuma perdoará no dia da vingança".

Isaías 61 fala do "dia da vingança do nosso Deus", que ainda será futuro. Quem tem adulterado com sua noiva, de modo a gerar, sob os mesmos termos, a ira do Senhor? Meditemos sobre.

E até o próximo capítulo!